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2003
:: 'O ano do
descompasso' ::
Entrevista com Paulo Cintra (Global Invest)
à
Ouvir a entrevista em áudio
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"O ano
do descompasso entre a economia real e o setor financeiro" -
foi assim que Paulo Cintra (Analista de Mercado da Global
Invest) definiu a economia brasileira no ano de 2003, em
entrevista especial ao Portal Economia. Entrevista esta que foi dividida
em duas partes: Análise do ano de 2003 (Parte 1) e projeções para
2004 (Parte 2).
Na primeira
parte da entrevista, sobre o ano de 2003, Paulo Cintra falou sobre: o
conturbado e incerto início do ano, quando foi desfeito o mito de que
Lula poderia traçar rumos obscuros para a política econômica; a
surpreendente alta da Bovespa no ano; a queda do dólar para a casa dos
R$2,90 e os possiveis impactos na balança comercial; o fluxo de capital
para o Brasil; as causas da queda do risco-País, e da forte valorização
do C-BOND; a inflação e as taxas de juros em 2003, dentre outros
assuntos de importância.
Veja abaixo a
entrevista transcrita na íntegra, ou se preferir clique
aqui para ouví-la em áudio.
Maurício
Martins (Portal Economia) – Como você analisaria, em poucas
palavras, o ano de 2003 para a economia brasileira?
Paulo Cintra (Global Invest) - Na
realidade, o ano de 2003 ficou marcado pelo descompasso entre a
economia real e o setor financeiro. Tivemos um ótimo ano no mercado
financeiro, com dólar se desvalorizando, risco-país caindo, bolsa
ultrapassando 21.000 pontos. Porém, ao mesmo tempo, no setor real da
economia é um ano em que o Brasil deve amargar queda no PIB,
desemprego recorde. Então, vejo o ano de 2003 como o ano do
descompasso: o ano em que o real e o setor financeiro se deslocaram.
Maurício – E 2003 foi um ano que começou com um pessimismo
muito grande...
Paulo - Foi um ano que começou com um pessimismo muito grande em relação
a política econômica do governo Lula. Porém, durante o ano a inflação
foi ficando sobre controle, a atividade econômica antes fraca
terminou o ano com aceleração. E também houve a questão de que o
Lula seguiu as metas do FMI, e isto deu uma força muito grande para a
visão do Brasil no Exterior, ajudando bastante, bem como a
popularidade do presidente aqui no páis
Maurício– Parece que tudo saiu diferente do que muitos
apostavam, como por exemplo a Bovespa chegando a 21.000 pontos agora
no final do ano
Paulo - Foi um grande surpresa: foi o ano em que a bolsa apresentou o
melhor resultado nos últimos três anos, sendo a segunda bolsa em
termos reais que mais subiu no mundo. Bovespa subiu 122% contra 136%
da Bolsa da Venezuela (em termos reais) – até 19/12.
Maurício– Então quem apostou que a Bolsa brasileira ia cair
este ano se deu bem mal...
Paulo - E muita gente apostou contra o Governo Lula: quem vendeu
titulo da divida brasileira, vendeu real e comprou dólar, então quem
apostou contra se deu mal este ano.
Vale lembrar um ponto importante deste ano: passamos por um fenômeno
de abundância de capital lá fora, com os paises desenvolvidos tendo
dinheiro sobrando e este dinheiro vindo para os paises emergentes. Não
foi só o Brasil que teve um bom ano, todos os paises emergentes
tiveram queda no Risco-País, bolsas em alta...Então o Brasil não
foi uma ‘estrela solitária’ neste ano, se beneficiando muito de
um movimento mundial de re-alocação de portfólio. O
Risco-Pais hoje esta em 480 pontos contra 2400 do final de 2002. Porém,
é importante levar em conta que apesar de toda esta queda, o risco-país
do Brasil ainda é o 5º maior do mundo, pois todos os riscos dos
emergentes caíram. É evidente que o Governo vai trazer este mérito
de queda do risco para si próprio, é uma questão política normal,
mas vale lembrar que isso foi um fenômeno mundial.
Maurício – Você falou em entrada de capital...e esta foi uma
das causas para, contrariando todas as previsões, o dólar está
fechando o ano abaixo de R$3
Paulo - Exatamente. Havia uma expectativa de que o real voltaria a se
desvalorizar no final do ano, ninguém via fechando abaixo de R$3.
Tinha uma grande quantidade de vencimentos,e ainda por cima este
dólar a R$2,90 deve afetar a balança comercial. Muita gente achava
que deveria haver um ajuste para o Brasil fechar as contas, porém
esta abundancia de capital acabou quebrando a expectativa de muitos
analistas.
Maurício – Você acha, então,
que estes negócios de comércio exterior que estão sendo fechados
agora podem ser prejudicados?
Paulo - Não há duvida. Já falando um pouco de 2004, eu acho que o
Brasil irá sim sofrer. Deve haver um efeito na balança comercial. As
nossas projeções aqui na “Global Invest” apontam para uma
necessidade de USS 47 bi para o Brasil ‘fechar suas contas’ em
2004 contra os US$23 bi que foram necessários em 2003. Quer dizer, é
o dobro de dinheiro necessário em 2004. E estes US$47 bi refletem a
queda no superávit comercial...Vale lembrar que os acordos de importação-exportação
não são como mercado financeiro, que mudam ‘do dia pra noite’, são
processos lentos, graduais, mas que certamente haverá um reflexo
negativo em 2004. O superávit de mais de US$24 bi de 2003 não deve
se repetir em 2004, quando deve ficar em cerca de US$15 bi.
Maurício – E as importações foram muitos baixas em 2003...
Paulo - Exatamente. Foi um ano que não teve crescimento, e por isso não
teve importação. A partir do momento em que o Brasil voltar a
crescer, sendo a nossa projeção de 4% para 2004, isso deve com
certeza aumentar as exportações, que não estão achando espaço
pois a moeda não traz a competitividade necessária para os produtos
brasileiros.
Maurício – Enquanto vimos um crescimento grande das
exportações, a importações ficaram praticamente iguais ou
menores...
Paulo - Porém, com o crescimento da economia, grande parte das
exportações que o Brasil faz devem se voltar para o mercado interno,
e isto deve ter um impacto no saldo da balança comercial em 2004
Em 2003 o Brasil fez um ajuste das contas externas, mas este não foi
completo. Tivemos um dólar chegando perto dos R$4 que incentivou as
exportações, aumentou o superávit comercial do Brasil, mas este dólar
voltou para a base de R$3. Logo, todo este superávit que conseguiu-se
com o dólar valorizado frente ao real, foi perdido no final do ano.
Então, o ajuste externo não foi completo.
Em 1999 houve ajuste, e o Real voltou a se valorizar. O mesmo ocorreu
agora em 2003, quando após a desvalorização de 2002, o real voltou
a se valorizar. E eu vejo este como um grande erro de política econômica
do Governo Lula, pois alguém tinha que pagar pela desvalorização do
Real. E quem ia pagar era o Governo do FHC no final de 2002. O Lula não
precisava deixar a moeda se valorizar novamente: como o dólar já
estava a R$4, poderia ter segurado o dólar a R$3,50 , havendo assim
um forte ganho de competitividade externa.
Maurício – Mas então você acha que o ideal seria uma política
que interferisse no cambio para segurar a queda da moeda então?
Paulo - Eu acho que não deve se interferir no cambio, mas mexer com
as expectativas do mercado, algo que o BC dos EUA faz muito. O
Greenspan mantém a taxa de juros em 1%, por exemplo, mas sempre diz
no mercado que não vai aumentar a taxa de juros, para trazer assim, a
taxa de juros para baixo. Ele não precisa mexer nos juros básicos,
mas somente mexer com as expectativas do mercado. Então, não tinha
porque o BC brasileiro vir a público no meio do ano para dizer que não
iria intervir no câmbio, pois caso isso não ocorre o dólar não
teria chegado a R$2,80. O mercado iria ficar com medo, e pensar, por
exemplo de que quando a moeda chegasse a R$3,10 , o BC poderia
intervir. Era mexer com a expectativa, não precisava colocar um real
na economia.
Maurício – O que foi feito bastante durante o ano foi uma
intervenção não declarada, com o Banco do Brasil comprando dólares
no mercado a pedido do Tesouro Nacional, o que não teve grande influência...
Paulo - Não adianta...se o fluxo é positivo, se a expectativa do
mercado é positiva, pode-se entrar com 5, 10, 15, 20 bilhões que não
conseguirá segurar [a cotação]...Precisa-se mexer bem mais com a
expectativa do mercado que fazer uma intervenção ‘branca’, por
exemplo.
Maurício – E como você viu, agora em 2003, aliado a questão do câmbio,
a inflação?
Paulo - Eu acho que em nenhum momento a inflação saiu de controle.
Falou-se muito de ‘inércia inflacionária’ quando a inflação
estava em [cerca de] 5% ao mês; mas na verdade, a questão é que
temos muitos produtos atrelados ao dólar, então com a desvalorização
do Real, a inflação era mais do que esperada. A inércia inflacionária
ficou em 94 quando o Real entrou, a inflação era esperada, bem como
o seu controle.
Maurício – Você acha, então, que precisava de uma taxa de
juros de 26,5% a.a. por tanto tempo?
Paulo - Não tenho a menor duvida que a política monetária do
Governo Lula foi exagerada. Eu acho que 26,5% era muito, o governo
demorou muito para baixar esta taxa de juros. E este ônus está sendo
pago hoje, com a economia demorando a crescer, além de desemprego
recorde. Fora os mais de US$100 bi de reais só de taxa de juros este
ano.
Maurício – Pois é, e existe a ‘desculpa’ do Governo de que
2003 foi o ano para arrumar a casa, e que as atitudes estavam todas
certas mesmo...
Paulo - E há quanto tempo a gente não escuta isto? Não é novidade
dizer que vai ‘arrumar a casa’, que é uma gestação de 9
meses...Não é isso, a questão é que o governo demorou sim para
abaixar a taxa de juros, e pagamos um custo enorme por isto.
Ficou-se falando o ano inteiro de Reforma da Previdência, e era uma
briga dizendo que na realidade é importante, pois a Reforma vai
economizar R$20bi de reais dos cofres do Governo nos próximos 10
anos...R$20 bi seriam economizados caso a taxa de juros tivesse sido
elevada para 24% e não para 26,5% no inicio do ano...Ficou-se muito
em torno de uma discussão sem necessidade. Ninguém sabe quais os
reais benefícios da Reforma Tributária e da Previdência, todo mundo
só ‘pula no ar’...
Maurício – E talvez aí tenha um outro efeito, o de que o
Governo tem força no Congresso...
Paulo - Exatamente! E aí novamente vemos a questão das expectativas.
O que mudou não foi a Reforma da Previdência, a Tributária, e a
Ministerial (que está por vir). O que mudou foi o apoio do Governo no
Congresso. Porém, apoio para quê? Que medidas o Governo vai tomar?
Parece que a visão para uma hora, ninguém vê além daquilo...
Então, dentro deste fluxo de dinheiro positivo para o Brasil,
devido a uma baixa taxa de juros lá fora, isto se encontrou muito bem
com todas estas questões de Reforma, usando-se isto como desculpa...O
mercado criou diversos mitos este ano para melhorar a performance
Maurício – E com certeza se as reformas não tivessem sido
aprovadas em 2003, com certeza já haveria problemas, o mercado
ficaria com medo...
Paulo - Ouvi até uma frase do João
Saad certo dia no jornal, que dizia: ‘o mercado faz mitos, depois
ele faz contas, desfaz o mito, e faz um novo mito’...Então, o
mercado vai levar a bolsa [por exemplo] até 23.000 ou 24.000 pontos,
até o momento em que irão fazer a conta e dizer: ‘não vale
isso’. Aí, ele desfaz aquilo, começa a vender [as ações], e
temos uma nova volatilidade.
Maurício – Já que falamos em juros... 16,5% ao ano termina a
taxa de juros SELIC em 2003. Muito alta ainda, Paulo?
Paulo - Muito alta. Eu acho que tinha espaço para estar mais baixa
que isso. Apesar de ter havido uma queda nos juros para 16,5 % ao ano,
a taxa real de juros não caiu. Porque com uma expectativa minha de
inflação de 5%, com a expectativa do BC de 3,9% de inflação, então
os juros reais seriam de 11% ou 12%, que é o que havia no começo do
ano. Então, está dando na mesma. Não adianta olhar para juros
nominal, e dizer que está ótimo em 16,5% ao ano. Os juros tem que
cair muito mais. Fazemos aqui [na Global Invest] uma pesquisa em que
calculamos a taxa de juros real projetada para os próximos 12 meses
no mundo inteiro. E o Brasil tem a maior taxa de juros real do mundo,
de 10% projetado para os próximos 12 meses, ficando em 2º lugar
Israel com 7,1%. Independente de toda esta queda no ano inteiro,
chegando a 10% de queda e fechando a 16,5% , a taxa brasileira ainda
é a maior taxa real do mundo.
Maurício – Talvez, então, neste ponto o Alencar esteja certo, né?
Paulo – Neste ponto ele está certo...Mas ai tocamos em outros
assuntos... Outro dia, ele disse que a meta de inflação deve sem em
torno de 2% e 3% em 2004; como é possível uma meta destas com uma
taxa de juros baixa? Neste caso, vemos países como o México que faz
uma meta de 8 ou 9%, que é muito mais sensato do que tentar fazer uma
meta que se vê na Europa ou Nova Zelândia (de 3% ou 3,5%), e no
final do ano ter um PIB praticamente negativo, um desemprego recorde.
Ou seja, não se pode atravancar as políticas econômicas.
Maurício – Então, aí um outro detalhe: eles [BC brasileiro]
acabam fazendo metas muito ousada, e depois durante o ano começa-se a
corrigir esta meta...
Paulo – Então, aí não adianta nada. Deve-se fazer metas que cabem
na economia, do que ficar durante o ano tentando corrigir, elevar
juros para 26,5% ao ano, segurar isto por um tempo [o que eu jamais
iria segurar uma taxa tão alta por tanto tempo], e aí
inevitavelmente tem-se um impacto tremendo na economia. Então, vale o
ceticismo; vale enxergar que em todos os indicadores do mercado
financeiro já esta embutido todo o otimismo, toda tranqüilidade
externa, sem guerra, sem crises...tudo isto está embutido no preço.
O Risco-País caiu para 480 pontos, mas a relação dívida PIB do
Brasil aumentou: passou no último mês para 58%. Então, se acontecer
uma re-alocação de portfólio, e seria este o ponto de ruptura que
pode acontecer em 2004: se os EUA voltarem a crescer de forma
sustentada, haverá um aumento na taxa de juros lá, e os ativos
americanos ficarão mais rentáveis, e isto fará com que o dinheiro
volte para os EUA. E justamente num ano em que o Brasil vai precisar
de mais dinheiro. Ai a situação começa a ficar mais complicada. Não
que eu seja pessimista, mas o que me assusta é o fato das pessoas não
olharem para certos números.
Maurício – Vimos um ano em que a economia real foi muito mal e o
mercado financeiro muito bem. Tocamos na questão do risco-país em
queda, com o C-BOND se valorizando bastante.
Você atribui a que o maior valor de face ao C-BOND? A uma procura por
uma maior rentabilidade no Brasil?
Paulo – Exatamente. Falei no início da queda do risco-país de
todos os emergentes. Se pegarmos países como Polônia, Malásia, estão
pagando taxa de juros 0,5% acima que a dos EUA. E o investidor aceita,
por exemplo, ir para a Polônia para receber meio por cento a mais que
nos EUA. Observa-se uma procura por uma rentabilidade pequena, de tão
baixo que estão os juros nos EUA. E isto trouxe também investidores
para o Brasil: esta procura pelos títulos brasileiros, que trazem uma
rentabilidade maior, fez com que houvesse esta valorização tremenda
do C-BOND, ficando este na maior cotação da história.
Maurício – Mais aí existem algumas especulações, de novas
emissões ou de que o Governo viesse a recomprar os C-BONDS...
Paulo – Esta especulação é o seguinte: se o C-BOND chegar em 100%
do valor de face o governo pode recomprar este titulo, então se ele
chegar a 105% do valor de face, o governo pode recomprar a 100% do
valor de face; chegando a 100%, não compensa mais ao investidor
comprar o C-BOND, pois ele pode comprar por um valor acima do que o
Governo pode recomprar dele...
Maurício – E você acha que o Governo exerceria esta opção?
Paulo – Eu acho que sim, não tem por que ele não exercer...se o
C-BOND chegar a 105% por exemplo, o Governo não precisa de dinheiro
para recomprar o C-BOND, o que ele faz é lançar um titulo lá fora e
comprar C-BOND, ou seja, faz uma troca na verdade. Se o C-BOND estiver
em 105%, por exemplo, o juros dele está em 6% ao ano. Se o governo
tem um cupom de 8%, ele está pagando mais do que poderia pagar por
aquele titulo. Então, faz uma troca e lança um novo título, pois
ele vai pagar 6% ao ano e recompra o C-BOND. Isso não tem porque o
Governo não fazer.
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Esta foi a
primeira parte da entrevista especial do Portal Economia com Paulo
Cintra (Analista de Mercado - Global Invest).
Você pode conferir a
segunda parte da entrevista, com as projeções para 2004, clicando
aqui. |